quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Diplomação de Terreiros

Por não ter tido tempo de postar anteriormente, queria deixar registrado aqui neste blogger, uma grande conquista do meu Ilè Asè, hoje devidamente legalizado.

A Coordenadoria do Mutirão de Legalização das Comunidades Tradicionais de Terreiros do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com Centro Cultural Agué Marê, realizou no último dia 21/11/2011, no Teatro Armando Melo em Duque de Caxias, a entrega dos Diplomas aos Terreiros, Instituições e Ministros Religiosos do Estado do Rio de Janeiro. Cerca de 200 pessoas compareceram ao evento, que contou como mestra de cerimônias, a Prof. Valeria Teixeira.

Na oportunidade, foram discutidos temas sobre a intolerância religiosa e a educação.

Para maiores informações sobre a legalização de terreiros e instituições, somente com hora marcada através dos telefones: (21) 2675-0615, (21) 9327-0094 ou (21) 9879-8707 com a Prof. Valeria Teixeira.

Fotos do Evento:
Profa. Valeria Teixeira (Mutirão de Legalização)
Entrega da documentação dos Bàbálòrìsás Wanderlei de Sàngó e Karlos de Òsún
A guerreira e amiga Prof. Valeria Teixeira

Mais uma Instituição sendo reconhecida
Profa. Valeria Teixeira e o guerreiro Carlos Alberto Caó Oliveira
Recebendo pelas mãos do Grande Caó a minha diplomação
REALIZANDO UM SONHO!
Meus agradecimentos por poder participar desse momento histórico
Ao lado do querido amigo e companheiro de luta - Bàbálòrìsá Karlos de Òsún
Novamente ao lado de gente querida - Bàbá Karlos e Mãe Fátima
O Guerreiro Caó e o irmão Bàbálòrìsá Yango de Obaluwàiyé
Carlos Alberto Caó e plenário
Orgulho total!
Auditório
Exemplo a ser seguido: Profa. Valeria Teixeira e Carlos Alberto Caó Oliveira
Entrega da diplomação do Bàbálòrìsá Fábio de Òsógiyan
Tonho Chave de Ouro, eu, Bàbálàwó FOLA OLUDARE AYODELE e Mãe Fátima

Ter mão próspera



Ter mão próspera é saber preparar seus omo-òrìsá para o culto de modo que os faça compreender a importância e a seriedade de sua religião — por inteiro.

Ter mão próspera é saber preparar seus omo-òrìsá para a vida de modo que sejam pessoas decentes.

Ter mão próspera é conseguir equilibrar a vida das pessoas de modo geral, sejam quem forem.

Ter mão próspera é saber conduzir o egbé como se estivesse semeando um jardim para o futuro e conseguir que as sementes brotem, cresçam e floresçam.

Ter mão próspera é amar òrìsá acima de tudo e conseguir invocá-los do orún ao àiyé sem medo, mentiras ou interesses escusos.

Ter mão próspera é ser respeitado(a) pelas divindades como um veículo espiritual em quem se pode confiar.

Ter mão próspera é saber ser ponte segura.

Fonte: Desconhecida

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Terreiros de portas abertas para a Cidadania

Mãe Meninazinha de Oxum (Anfitriã)
No dia 12 de Janeiro de 2012, foi realizado o Encontro Estadual Religiões Afro-Brasileiras e a Promoção da Saúde no Rio de Janeiro: Corpo, Sexualidades, Prevenção do HIV-AIDS e Direitos Humanos, no Ilê Omulu Oxum -  Rio de Janeiro. 
Deu-se a continuidade às discussões sobre a epidemia de HIV-Aids, valorizando aspectos relacionados aos modelos de cuidado e acolhimento da tradição religiosa de matriz africana, a importância da participação social e da garantia dos direitos humanos, assim como o fortalecimento do diálogo entre os terreiros e o Sistema Único de Saúde.
Tal evento contou com a realização da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e do Ilê Omulu Oxum.
Com o apoio: Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro/Gerência de DST-Aids e Ministério da Saúde/Departamento de DST-Aids e Hepatites Virais.

 A programação do evento como mesa de abertura contou com a participação de Mãe Meninazinha de Oxum – Ìyálorixá do Ilê Omulu e Oxum (anfitriã do evento); José Marmo da Silva – Coordenador da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde; Willian Lyra – Superintendente de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SUPPIR Meriti.

Na sala de conversa 1 - O tema foi:  As religiões de matrizes africanas e a arte de cuidar. Com a coordenação da mesa de Mãe Edelzuita de Oxalá, e a participação de Egbomi Vanda Machado do Opo Afonjá de Salvador e a brilhante e encantadora participação de Mãe Beata de Iemanjá – Ilê Omi Ojuarô - RJ.

Também em continuidade as salas de conversa, foi debatido o tema: Corpo, Sexualidades e suas interfaces com as religiões de matrizes africanas, com os argumentos do Babá-Egbé Adailton Moreira – Assessor para o Enfrentamento à Intolerância Religiosa SUPERDir/SEASDH, e da Professora Helena Theodoro, mesa esta, coordenada por Pai Renato de Obaluaiê.

Após pausa para o almoço servido aos participantes do Seminário, os debates foram retomados com a sala de conversa 3, abrangendo o tema: Religiões de matrizes africanas e a epidemia de HIV-Aids: desafios e perspectivas nas experiências de gestão no SUS, que contou com a participação de Ekédji Iná Meireles – Hospital Universitário Pedro Ernesto; Pai Celso de Oxaguian – Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, tendo como coordenador, o  Babá Dyba de Iemanjá – Porto Alegre. E encerrando o incrível evento com a última mesa, a discussão foi sobre o tema: HIV-Aids: Participação Popular e Direitos Humanos, com a partipação de Ogan Nilo Fernandes - FIOCRUZ; Veriano Terto - Associação Brasileira interdisciplinar de Aids, coordenada por Mãe Torody de Ogum.

Essa iniciativa tem o propósito de agregar as diversas expressões das religiões de matriz africana no Brasil, constituindo assim, os terreiros como espaços de resistência cultural negra, que funcionam também como pólos de difusão de informações e troca de saberes.

A participação de lideranças dos terreiros, sucessores e sucessoras que preservam a força e o carisma da tradição religiosa, tem como objetivo o reconhecimento dos terreiros como espaços promotores de saúde, realização de atividades de promoção de saúde valorizando a visão de mundo dos terreiros e o fortalecimento do controle social de políticas públicas de saúde pelo "Povo do Santo". Reconhecendo que na cultura dos terreiros, o corpo é a morada dos deuses e deusas, e por isso deve estar sempre bem cuidado, pretende-se ampliar a integração dos terreiros com os serviços de saúde locais, na perspectiva do acesso e da garantia do direito humano à saúde.

Fotos do Evento:


Mãe Meninazinha, Mãe Edelzuíta e Mãe Nalva

Mãe Meninazinha e Mãe Nilce
Mãe Meninazinha, Mãe Edelzuíta, Mãe Nalva e Mãe Beata
Mãe Meninazinha de Oxum


Adailton Moreira e José Marmo
Mãe Meninazinha de Oxum e Mãe Beata de Yemanjá
Mãe Meninazinha, Mãe Beata e Mãe Edelzuíta
Mãe Nilce e Mãe Meninazinha
As grandes Ìyálòrìsás
Mesa de Debates 1
Mesa de Debates 2 - Mãe Beata, Mãe Edelzuita e Egbomi Vanda
Mesa de debates 3 - Profa. Helena Theodoro, Adailton Moreira e Pai Renato
Participantes do evento - Povo do Santo      

Eu e Adailton Moreira
Ekedji Iná, Bàbá Dyba de Yemanjá e Bàbá Celso de Osogiyan
José Marmo, Mãe Beata e Bàbá Dyba
Pai Zezito, Mãe Meninazinha, Mãe Palmira e Mãe Torody

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Agradecimento a Òsún pelo ano de 2011

Mo Dùpé Ìyá Mi Òsún e Gbogbo Òrìsás!



Agradeço por exerceres presença tão marcante em minha vida neste ano de 2011. Quero agradecer por todas as minhas conquistas, pois sem as suas bênçãos, eu jamais poderia alcançá-las. Agradeço pela minha família, por meu filho, meus filhos de santo, meus amigos.
Quero agradecer também por ter colocado algumas barreiras na minha vida. Adversidades que de alguma forma, contribuíram para o meu amadurecimento, aprendizado, crescimento e  fortalecimento. Agradeço por exatamente nesses momentos, sempre sentir a vossa presença, sentir o seu aconchego, o seu acalanto... fosse no cantar dos pássaros, na chuva que irrigava a terra, na brisa suave que tocava meu rosto, no sorriso do meu filho, no telefonema na hora certa de um amigo.
Peço desculpas por algumas vezes, pelas atribuições do dia-a-dia, não ter sido perspicaz o bastante, para poder interpretar os vossos sinais. 
Agradeço por abençoar as minhas mãos, que sempre deram bons caminhos aos que delas precisaram, independente dos beneficiados terem essa consciência ou reconhecimento. Obrigada por abençoar os meus ouvidos, para que eu possa ouvir sempre alguém que necessita de atenção. Obrigada por abençoar a minha boca para que eu possa falar palavras de conforto, obrigada por meus dentes para que eu possa continuar a sorrir,  melhorando o humor e a vida de alguém de alguma forma.
Obrigada por estar ocupando o meu coração por inteiro, desde o dia da minha iniciação espiritual, por me ajudar sempre, por ser minha amiga mais fiel, por todas as alegrias que tive, que tenho, que ainda terei a permissão de ter... Obrigado por todas as conquistas, mas e principalmente, pelas novas conquistas que realizarei nesse novo ano, se me julgares merecedora.
Agradeço pelas pessoas que passaram em minha vida, e até por aquelas que de alguma forma me machucaram. Pois daí,  aprendi e agora sei,  o que não quero pra mim. Tudo vale como crescimento!
Agradeço Ìyá mi Òsún, porque apesar de todas as pedras e obstáculos inerentes a caminhada da vida, ainda assim, não perdi em momento algum,  a esperança de lutar pelo que acredito, a minha fé na minha religião, no meu Sagrado, a capacidade de ser feliz com a realidade que vivo e o olhar otimista perante os seres, circunstâncias e coisas... penso que essa maleabilidade traz a sensação de dever diário cumprido e de sucesso pessoal realizado, e nenhuma palavra traduz melhor esse sentimento de bem-estar tão bem quanto PAZ DE ESPÍRITO, que é exatamente o que sinto!
Que o seu Asè,  se estenda também a minha família carnal e espiritual, aos meus amigos presentes, aos que me admiram à distância, aos meus irmãos de fé. Que o ano de  2012 possa ser regido por suas águas claras, lavando os males do mundo. Que o canto de suas águas embale meus sentimentos alimentando meu coração com as vibrações de paz e perdão, transformando-me a cada dia em um ser-humano melhor.
Senhora do ouro, clareia meus caminhos e os
caminhos de todos que amo e me querem bem. 
Peço somente a vossa permanência como Grande Mãe e Senhora da minha vida, vossa proteção e coragem para continuar a lutar pelos meus objetivos. 
Agradeço por tudo, pelo sol que brilha todos os dias em minha vida.
Agradeço por todas as orientações que recebo de vós. Proteja o meu caminho, proteja as pessoas que amo, ainda que estejam muito distantes. Dai-me forças para vencer
e continuar trilhando de maneira digna a missão que me concedeste. 

Mo dùpé Ìyá mi Òsún...  Ore yeye O!
Mo dùpé Òrìsá gbogbo!
Mo dúpé Olòrun!
E ku odun dàrá!



Òrìsás - quem conhece Ama!

 
 
"Orixás são divindades...
Fagulhas de um sagrado que mistura o entendimento humano, nossa capacidade de entendimento de tais seres, com a força emanada por eles que nos dão sustento.
Principalmente nos piores momentos de nossas vidas.

Orixás são vida...
Uma chama tranquila de vida que nos desperta para uma outra consciência, em que não existe bem nem mau, mas um significado para todos os nossos atos e ações.
Fazendo com que saibamos que eles estão lá, em um lugar qualquer, nos orientando, nos guiando, nos enriquecendo de sabedoria.
Porém, não são responsáveis pelos nossos erros, nossas escolhas ruins, nossos infortúnios, nossas quedas, nossa ignorância, pois Eles avisam, alertam, orientam ...
Mas é nossa a vida e são nossas as escolhas.

Orixás são caminhos...
Que deveríamos seguir, mas acabamos desviando, tentando atalhos, uma maneira melhor e mais rápida ... Daí voltamos, e Eles estão lá nos esperando. Sempre de braços abertos, mesmo que nos sacudam e nos dêem broncas, estão lá, aguardando por nós.

Orixás são temperança...
Têm vontade própria, caráter, glória, perseverança, bondade, carisma ...
Todas as características humanas, pois somente assim poderíamos definí-los.; somente assim, poderíamos descrevê-los.; somente assim, eles poderiam se revelar diante de nós.
Como um espelho onde é refletida a nossa imagem, mas que tem sua própria têmpera e brilho, os quais não podemos ver com os nossos frágeis olhos, porém, sabemos que Eles estão ali, pois a força que vem do olhar do reflexo é algo a mais que não enxergamos, mas que podemos apenas sentir. Vemos, mas não enxergamos, apenas sentimos.

Orixás são idealizações...
Onde Eles se colocam tudo do que há bom, e onde não conseguimos alcançar esse bom.
Ao contrário, só sabemos pedir, arriar, oferecer, obrigações materiais, onde não vemos o retorno útil, pois somos egoístas demais, ignorantes demais, brutos demais e muitos não sentem o retorno daquilo que é oferecido e revertido em nossas vidas. A transmutação da matéria ofertada em energia geradora de uma construção interior que poucos ainda conseguem entender e utilizá-la em suas vidas.

Orixás são luta...
Luta pela vida, por viver, por continuar, por existir, pela família, pelos amigos, pela tribo, pela glória de ser humano ... Ser especial da criação, que luta desde o ventre e continua lutando, não se deixando subjulgar nem se derrotar pelo mau do sofrimento, do egoísmo, da ganância, do soberba, da exploração do homem pelo próprio homem.

Orixás são amor...
Amor de mães, de pais, de fraternidade, de dividir a comida, compartilhar as responsabilidades, do ensinar às gerações futuras para que se possa preservar uma crença, os ritos, a doutrina, a fé.

Orixás são comunhão...
Entre Deus (Olórun ou Zambi) e os homens, nas pessoas das entidades. Dos pretos-velhos, dos caboclos, dos exús e pombogiras, dos boiadeiros, dos baianos, das crianças, dos marinheiros, dos ciganos, de tantos e tantos outros que se dispuseram a retornar, para munidos com a força de seus Orixás, orientar e guiar os homens no mundo da Terra, trocando o sofrimento pela alegria; a dor pelo alívio; a discriminação e o preconceito, pela liberdade e pelo respeito; a inveja pelo dividir e compartilhar; a ignorância pela consciência da humildade do conhecimento de ensinar e aprender ...

Orixás são a minha vida e sem Eles eu não sou nada, eu não existo."
 
Texto publicado no Correio da Umbanda – Edição 14 – Fevereiro de 2007.

Reflexão


"Gostei de me testar,
De ter sido testada.
Surpreendeu-me, o resultado.
Quero ver até onde,
Até que ponto no horizonte,
Consigo tocar!

Nunca imaginei passar pelo que passei,
Chegar aonde cheguei,
Ainda mais dessa forma:
Cada vez mais positiva,
Segura sobre a corda...
Até esboçando um sorriso.

Portanto, agora, quero ir além,
Já que estou me sentindo muitíssima bem!
Aliviada de alguns complexos,
Explodindo de energia em todos os plexos,
Estou convicta que posso ser uma pessoa melhor,
Já que tenho um propósito maior!

A devoção ao meu ofício,
Eliminou da minha vida a palavra sacrifício.
Voltei-o todo para o processo evolutivo planetário.
É o meu holístico itinerário.
Enquanto termino de acordar,
Semear o despertar!

Todo o meu ser pulsa essa meta:
Servir de seta
Para quem na vida
Resolveu se voltar para a subida.
É a razão de minha existência,
O segredo da resiliência!

Enquanto for profunda a respiração
E inesgotável a inspiração,
Dedicar-me-ei, integralmente, ao papel de arauto
Desse novo tempo,
Com seu harmonioso argumento.
Do alto do escolhido palco."


(Claudio Poeta)


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ìtán - OS GÊMEOS QUE FIZERAM A MORTE DANÇAR



"Na velha aldeia de Ifá tudo transcorria normalmente. Todos faziam seu trabalho, as lavouras davam seus bons frutos, os animais procriavam, crianças nasciam fortes e saudáveis.
Mas um dia, a Morte resolveu concentrar ali sua colheita. Aí tudo começou a dar errado. As lavouras ficaram inférteis, as fontes e correntes de água secaram, o gado e tudo o que era bicho de criação definharam.
Já não havia o que comer e beber. No desespero da difícil sobrevivência, as pessoas se agrediam umas às outras, ninguém se entendia, tudo virava uma guerra.
As pessoas começaram a morrer aos montes. Instalada ali no povoado, a Morte vivia rondando todos, especialmente aspessoas fracas, velhas e doentes.
A Morte roubava essas pessoas e as levava para o outro mundo, longe da família e dos amigos.
A Morte tirava a vida delas.
Na aldeia morria-se de todas as causas possíveis: de doença, de velhice, e até mesmo ao nascer.
Morria-se afogado, envenenado, enfeitiçado. Morria-se por causa de acidentes, maus-tratos e violência. Morria-se de fome, principalmente de fome.
Mas também de tristeza, de saudade e até de amor.
A Morte estava fazendo o seu grande banquete. Havia luto em todas as casas. Todas as famílias choravam seus mortos.
O rei mandou muitos emissários falar com a malvada, mas a Morte sempre respondia que não fazia acordos.
Que ia destruir um por um, sem piedade. Se alguém fosse forte o suficiente para enfrentá-la, que tentasse, mas seu fim seria ainda muito mais sofrido e penoso.
Ela mandou dizer ao rei, por fim:
“Para não dizerem que sou muito rabugenta, até concordo em dar uma chance à aldeia.”
E ria e escarrava ao mesmo tempo, dizendo:
“Basta que uma pessoa me obrigue a fazer o que não quero. Se alguém aqui me fizer agir contra a minha vontade, eu irei embora.”
Depois, cuspindo nos seus interlocutores, completou:
“Mas só vou dar essa oportunidade a uma única pessoa. Não vou dar nem a duas, nem a três.”
E foi-se embora dali, saboreando antecipadamente mais uma vitória.
Mas quem se atreveria a enfrentar a Morte?
Quem, se os mais bravos guerreiros estavam mortos ou ardiam de febre em suas últimas horas de vida?
Quem, se os mais astutos diplomatas havia muito tinham partido?
Foi então que dois meninos, os Ibejis, os irmãos gêmeos Taió e Caiandê, que os fofoqueiros da cidade diziam ser filhos de Ifá, resolveram pregar uma peça na horrenda criatura.
Antes que toda a aldeia fosse completamente dizimada, eles resolveram dar umbasta aos ataques da Morte.
Decidiram os Ibejis:
“Vamos dar um chega-pra-lá nessa fedorenta figura.”
Os meninos pegaram o tambor mágico, que tocavam como ninguém, e saíram à procura da Morte.
Não foi difícil achá-la numa estrada próxima, por onde ela perambulava em busca de mais vítimas.
Sua presença era anunciada, do alto, por um bando de urubus que sobrevoavam a incrível peçonhenta.
E o cheiro, ah, o cheiro!
A fedentina que a Morte produzia à sua volta faria vomitar até uma estatueta de madeira.
Os meninos se esconderam numa moita e, tapando o nariz com um lenço, esperaram que ela se aproximasse.
Não tardou e a Morte foi chegando.
Os irmãos tremeram da cabeça aos pés.
Ainda escondidos na moita, só de olhar para ela sentiram como os pêlos dos seus braços se arrepiavam.
A pele era branca, fria e escamosa; o cabelo, sem cor, desgrenhado e quebradiço.
Sua boca sem dentes expelia uma baba esbranquiçada e purulenta.
Seu hálito era de um fedor tremendo.
Mas podia-se dizer que a Morte estava feliz e contente.
Ela estava até cantando!
Pudera, tendo ceifado tantas vidas e tendo tantas outras para extinguir.
Mas o canto da Morte era tão cavernoso e desafinado que os passarinhos que ainda sobreviviam silenciavam como se fossem mudos brinquedos de pedra.
O canto da Morte, se é que podemos chamar aquele ruído de canto, era tão desconfortável e medonho que os cachorros esqueléticos uivavam feito loucos e os gatos magrelos bufavam e se arrepiavam todos.
Nesse momento, numa curva do caminho, enquanto um dos irmão ficava escondido, o outro saltou do mato para a estrada, a poucos passos da Morte.
Saltou com seu tambor mágico, que tocava sem cessar, com muito ritmo.
Tocava com toda a sua arte, todo o seu vigor.
Tocava com determinação e alegria.
Tocava bem como nunca tinha tocado antes.
A Morte se encantou com o ritmo do menino que, com seu passo trôpego, ensaiou um dança sem graça.
E lá foi ela, alegre como ninguém, dançando atrás do menino e de seu tambor, ele na frente, ela atrás.
O espetáculo era grotesco, a dança da Morte era, no mínimo, patética.
Nem vou contar como foi a cena: cada um que imagine por conta própria.
E é bem fácil imaginar.
Bem; lá ia o menino tocador e atrás ia a Morte.
Passou-se uma hora, passou-se outra e mais outra.
O menino não fazia nenhuma pausa e a Morte começou a se cansar.
O sol já ia alto, os dois seguiam pela estrada afora, e o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá.
O dia deu lugar à noite e o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá.
E assim ia a coisa, madrugada adentro.
O menino tocava, a Morte dançava.
O menino ia à frente, sempre ligeiro e folgazão.
A Morte seguia atrás, exausta, não agüentando mais.
“Pára de tocar, menino, vamos descansar um pouco”, ela disse mais de uma vez.
Ele não parava.
“Pára essa porcaria de tambor, moleque, ou hás de me pagar com a vida”, ela ameaçou mais de uma vez.
E ele não parava.
“Pára que eu não agüento mais”, ela implorava.
E ele não parava.
Taió e Kaiandê eram gêmeos idênticos.
Ninguém sabia diferenciar um do outro, muito menos a Morte, que sempre foi cega e burra.
Pois bem, o moleque que a Morte via tocando na estrada sem parar não era sempre o mesmo menino.
Uma hora tocava Taió, enquanto Kaiandê seguia por dentro do mato.
Outra hora, quando Taió estava cansado, Kaiandê, aproveitando um curva da estrada, substituía o irmão no tambor.
Taió entrava no mato e acompanhava a dupla sem se deixar ver.
No mato o Irmão que descansava podia fazer xixi, beber a água depositada nas folhas dos arbustos, enganar a fome comendo frutinhas silvestres.
Os gêmeos se revezavam e a música não parava nunca, não parava nem por um minuto sequer.
Mas a Morte, coitada, não tinha substituto, não podia parar, nem descansar, nem um minutinho só.
E o tambor sem cessar, tá tá tatá tá tá tatá.
Ela já nem respirava:
“Pára, pára, menino maldito.”
Mas o menino não parava.
E assim foi, por dias e dias.
Até os urubus já tinham deixado de acompanhar a Morte, preferindo pousar na copa de umas árvores secas.
E o tambor sem parar, tá tá tatá tá tá tatá, uma hora Taió, outra hora Kaiandê.
Por fim, não agüentando mais, a aparição gritou:
“Pára com esse tambor maldito e eu faço tudo o que me pedires.”
O menino virou-se para trás e disse:
“Pois então vá embora e deixe a minha aldeia em paz.”
“Aceito”, berrou a nauseabunda, vomitando na estrada.
O menino parou de tocar e ouviu a Morte dizer:
“Ah! que fracasso o meu. Ser vencida por um simples pirralho.”
Então ela virou-se e foi embora.
Foi para longe do povoado, mas foi se lastimado:
“Eu me odeio. Eu me odeio.”
Só as moscas acompanhavam a Morte, circundando sua cabeça descarnada.
Tocando e dançando, os gêmeos voltaram para a aldeia para dar a boa notícia.
Foram recebidos de braços abertos.
Todos queriam abraçá-los e beijá-los.
Em pouco tempo a vida normal voltou a reinar no povoado, a saúde retornou às casas e a alegria reapareceu nas ruas.
Muitas homenagens foram feitas aos valentes Ibejis.
Mesmo depois de transcorrido certo tempo, sempre que Taió e Kaiandê passavam na direção do mercado, havia alguém que comentava:
“Olha os meninos gêmeos que nos salvaram.”
E mais alguém complementava:
“Que a lembrança de sua valentia nunca se apague de nossa memória.”
Ao que alguém acrescentava:
“Mas eles não são a cara do Adivinho?”
 
Fonte: Cantinho Poético