sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Artigos Interessantes - Desabafo por Odé Mutaloiá

O Òrixá existe para todos, mas nem todos existem para o Òrixá. 

Durante minha trajetória dentro do Candomblé, encontrei as mais diversas pessoas, e, todas professavam fé nos Orixás. Mas posso garantir que muito poucas encontrei que realmente tivesse a tal fé professada.


Ocorre que, antigamente, uma pessoa fazia santo, para ser esposa ou esposo de Orixá. Tinha em mente que seu Orixá era nada mais nada menos, que uma religião e como tal, intercederia sim em sua vida, mas suas provações não deixariam de existir.

Não se fazia "santo" com o intuito de enriquecer, de se tornar celebridade. Apenas se fazia "Santo" para se cumprir uma exigência daquele ser Divino, que cobrava a iniciação. Eram as pessoas; felizes com seu Orixá, não importando os problemas que tivessem em suas vidas, pois sabiam que vivemos em um mundo onde a maldade e a desigualdade imperam.

Não havia o tipo de pergunta: “Onde está o santo?” “Foi para isso que dei comida ao santo?”.

As pessoas eram felizes pelo simples fato de estarem comungando com sua fé, sabendo que dias melhores estavam por vir.

Hoje, coitado do "Santo" que não der um carro zero a seu filho, uma mansão para determinado cliente e assim por diante. Trocaram a fé pelo conforto material, o amor pelas divindades foi trocado pelo luxo e pela avareza.

Não sou muito velho no santo, fui iniciado em 1983 e muito aprendi no quesito de amor ao santo acima de tudo nessa Terra. Vi muitas pessoas realmente velhas no santo, professarem seu amor, sua dedicação aos seres que governam a natureza. Tive o privilégio de conviver com pessoas que não mais estão nesse mundo, mas, que deixaram sua marca de amor e submissão ao Orixá e às vontades de Deus.

O que vejo hoje, muito me entristece, pois vejo pessoas que se dizem com fé, blasfemarem aos quatro cantos do mundo contra os Orixás, quando algo não sai do jeito que desejam.

Já encontrei até mesmo pessoas que nunca tomaram sequer água de obi, mas por terem santo de alguém de sua família em casa, que ao passarem certas dificuldades, perguntou aos Santos:

“O que vocês estão fazendo aqui?”

Quanta pobreza de espírito! Quanta maldade no coração dessa pessoa! Pergunto-me: Por que a sua religião, a qual frequentou tanto tempo, não deu moral em seu espírito nem a livrou de tanto sofrimento?

Simples, porque era somente sua religião e nada mais, além disso.

O fato de termos um Orixá, não significa que não mais iremos ter problemas em nossas vidas!

Ao contrário: sabe-se que toda pessoa que tem muita fé, sofre ainda mais que os demais, pois é testada a cada dia pelas forças negativas. Encontro sempre em meus caminhos, pessoas que professam outra religião, mas que sofrem muito e nem por isso culpam Deus por seu sofrimento.

Eu mesmo já passei por muitas coisas ruins nessa vida, de chegar ao ponto de ser roubado por um filho de santo, mas nem por isso culpei santo algum, nem mesmo o dele, pois penso que as coisas do mundo, tratamos no mundo.

Mas, as pessoas do Candomblé não podem passar por nada, que logo questionam: “Onde está o santo”? Até mesmo pessoas de outras religiões, perguntam a mesma coisa. Quem disse que pelo fato de ser iniciada no Candomblé, uma pessoa deixaria de ter problemas ou de sofrer nesse mundo, sendo ele um planeta de expiações?

Passamos hoje e passaremos sempre por nossas provações, independente da religião que sigamos. Os Orixás existem para nos darem forças para seguir em nossa jornada e não como promessa de uma vida perfeita.

Ao invés de reclamarem do santo, por que não dizem: “ainda bem, porque senão fosse o  "santo" poderia ter acontecido algo muito mais grave comigo”.

Viver "para o santo" é viver em uma eterna clausura, onde a vida material muito pouco existe para nós. Não cabe dentro do axé Orixá, reclamações, vinganças, lamúrias nem nada parecido.

Dentro do mundo dos Orixás cabe somente o amor e a submissão às vontades de Deus. Não nos é permitido questionarmos os mistérios de Deus nem de seus mensageiros. Se sofremos é tão somente porque estamos em um mundo onde a dor e a tristeza são partes ativas do viver.

Ao que me lembre de Orixá nunca nos prometeu, dia sem chuva, noite sem luar, vida sem tristeza, a única coisa que prometem, são fidelidade, amor e companheirismo por toda a vida!

Assim, se sua vida anda ruim, não se lamente, nem blasfeme contra os Orixás, mas faça algo para modificar seus dias e sua vida!

Tatetú N’Inkisi Odé Mutaloiá.





Texto gentilmente cedido e autorizado pelo irmão de fé - Sérgio Silveira - Tatetú N'Inkisi Lambanranguange - Odé Mutaloiá.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Rei do Banquete



Obalúwáiyè - Omolu - Sànpònná


Obalúwáiyè é uma flexão dos termos: Oba (rei) – Oluwò (senhor) – Àiyè (terra), ou seja, “Rei, senhor da Terra”. Omolu também é uma flexão dos termos: Omo (filho) – Oluwò (senhor), que quer dizer “Filho e Senhor”.

Obalúwáiyè ou Omolu é o Sol, a quentura e o calor do Astro Rei. É o senhor das pestes, das moléstias contagiosas. É o rei da Terra, do interior da Terra, e é o Òrìsá que cobre o rosto com o filá (de palha- da-Costa), porque para os humanos é proibido ver seu rosto, pela deformação feita pela doença, e pelo respeito que devemos a este poderosíssimo òrìsá.

Obalúwáiyè também é o Senhor da Terra e das camadas de seu interior, para onde vamos todos nós. Daí a ligação que tem com os mortos, pois ele é quem vai cuidar do corpo sem vida, e guiar o espírito que deixou aquele corpo. 

O sol também tem a sua regência. Ele também é o calor provocado pelo sol quente. Há quem diga que não se deve sair à rua quando o sol está quente sem a proteção de um patuá, a fim de não correr o riscos e não sofrer a ira de Obalúwáiyè, geralmente fatal.

Obalúwáiyè está presente em nosso dia-a-dia, quando sentimos dores, agonia, aflição, ansiedade. Rege também o suor, a transpiração e seus efeitos. Rege aqueles que tem problemas mentais, perturbações nervosas e todos os doentes. Ele proporciona a doença mas, principalmente, a cura, a saúde. É o Òrìsá da misericórdia.
É o dono da terra, e sempre aparece ligado às coisas quentes, pois as moléstias que provocam a febre estão associadas. Daí a expressão quando uma pessoa fica doente: "Ilè nbá a", ou seja, a terra quente o pegou. Por ser considerado a própria doença, seu nome não é pronunciado em vão. Antigamene, à simples citação de seu nome, as pessoas tocavam os dedos no chão e os levavam à cabeça, no mais profundo respeito. Há a tendência de seus filhos terem o dom de curar as pessoas.

Ao se dizer que Omolu é um santo perigoso, está se falando é no sentido de ele ser entendido como o Òrìsá das doenças transmissíveis. Por isso, quando ele se manifesta dançando e vai passando pelo salão, entende-se que está recolhendo as enfermidades, e, ao abraçá-lo, as pessoas o fazem com muita delicadeza:

Omolu pè
Olóore
Awúrè
Kú áàbo

Por pertencer à família de Nànán e Òsùmàré, algumas casas os reunem num só cômodo do lado externo. Estritamente reservado, o que é dele é somente dele. As doenças de pele, como a varíola que lhe está associada, representam os seus poderes de marcar as pessoas sem o uso da faca. Essa questão deveu-se a uma provocação de Ògún, ao dizer que todos os Òrìsás dependiam de sua faca para o sacrifício de animais. Omolu e Nànán se recusaram a aceitar e passaram a usar de outros métodos. 
A cor vermelha, além de revelar a cor das enfermidades, o revela como irmão mais velho de Sangò, contrariando alguns conceitos do Candomblé que os vêem como adversários. Na realidade, a diferença entre ambos é de conceitos, enquanto um representa a fragilidade da doença, a frieza da morte, o outro é fogo, calor e vida. São posições, e não oposições.
Sua insígnia é o sasàrà, que é composto de nervuras de palmeiras, símbolo coletivo dos ancestrais, e ornamentado por búzios, símbolos da existência individualizada. O Sasàrá de Omolú / Obalúwáiyè, filho de Nànán, é como uma vassoura simbólica que pode varrer ou não as doenças. Está relacionado à mobilização do poder de cura e transformação. A cor vermelha representa o calor, a febre que Omolu pode infringir ou afastar, e as cabaças de cores escuras representam o imenso poder de transformação, morte e geração da vida contido na terra. Poderes que Omolú / Obalúwáiyè carrega consigo. Sua dança com o sasàrá nas mãos, imitam o movimento de varrer as doenças da casa:

Sàsàrá gbá'lé
Gbá'lé gbá'lé

Outros elementos deste Òrìsá, é o dono dos búzios, okò, a lança, sáworo, um trançado de palha-da-costa com guizos, usado no tornozelo; lágdígbà, colar de pequenos círculos feitos dos chifres do búfalo.
Mo da'àgo lónan
Ke wa sáworo
Àgo lé'lé
Àgo lónan
Ke wa sàworo
Àgo lé'lé

Quando o òrìsá se manifesta sobre um dos seus iniciados, ele é acolhido pela saudação "Atóto" = silêncio! Seus ìyáwòs dançam inteiramente revestidos de palha da costa. A cabeça também é coberta por um capuz da mesma palha, cujas franjas recobrem seu rosto. Dançam curvados para a frente, como que atormentados por dores, e imitam o sofrimento, as coceiras e os tremores de febre. O seu toque principal é o Opanije, significando em yorubá, "ele mata qualquer um e come".

A sua festa anual de oferendas e comidas chama-se Olúbáje. (Olu-aquele que, ba-aceita, jé-comer ; ou ainda aquele-que-come). Nànán é participante da festa e come com Omolu, e não com as aìyágbás, pois é ela quem esfria a quentura e o perigo as enfermidades de Omolu. Òsùmàré também participa como membro da família, bem como outros òrìsás. 

O Olúbáje, não é uma comida específica, mas sim um banquete oferecido à  Obalúwáiyè.
São oferecidos pratos de aberém (milho cozido enrolado em folha de bananeira), carne de bode e pipocas.

Seus “filhos” devidamente “incorporados” e paramentados oferecem as mesmas aos convidados/assistentes desta festa.

É uma oferenda coletiva para os Òrìsás da Terra, é aguardada durante todo o ano com muito entusiasmo, pois é nesta oferenda que os iniciados ou simpatizantes irão agradecer por mais um ano que passaram livre de doenças e pedir por mais um período de saúde, paz e prosperidade.

A celebração oferece aos participantes um vasto cardápio de “comidas de santo”, e, após todos comerem, participam de uma limpeza espiritual, que evoca a proteção destas divindades por mais um ano na vida de cada um.

É uma das cerimônias mais importantes do Candomblé, e relembra a lenda da festa que ocorria na terra de 
Obalúwáiyè, com todos os Òrìsás, na qual ele não podia entrar.

Segunda-feira é o dia da semana consagrado a ele. Sua comida votiva é o doburu, a pipoca, que as pessoas passam em seus próprios corpos para se preservarem de possíveis doenças, associando, assim numa mesma manifestação, a sua fé à força do Deus africano.
Diz-se que é filho de Nànán e originário, como ela e Òsùmàré, do país Mahi. Os "pejis" dessas três divindades são, por este motivo, reunidos numa mesma cabana, separada dos outros òrìsás.

Obalúwáiyè rege também a força da terra (herdado de sua filiação a Nànán), a umidade dela (por sua adoção por Yemojá) e as doenças das plantações.

Itàn de Obalúwáiyè / Omolu

Chegando de viagem à aldeia onde nascera,
Obalúwáiyè viu que estava acontecendo uma festa com a presença de todos os òrìsás. Obalúwáiyè não podia entrar na festa, devido à sua medonha aparência. Então ficou espreitando pelas frestas do terreiro. Ògún, ao perceber a angústia do òrìsá, cobriu-o com uma roupa de palha, com um capuz que ocultava seu rosto doente, e convidou-o a entrar e aproveitar a alegria dos festejos. Apesar de envergonhado, Obalúwáiyè entrou, mas ninguém se aproximava dele. Yànsán tudo acompanhava com o rabo do olho. Ela compreendia a triste situação de Obalúwáiyè e dele se compadecia. Yànsán esperou que ele estivesse bem no centro do barracão. O sirè (festa, dança, brincadeira) estava animado. Os Òrìsás dançavam alegremente com suas Ekedjis. Yànsán chegou então bem perto dele e soprou suas roupas de palha com seu vento. Nesse momento de encanto e ventania, as feridas de Obalúwáiyè pularam para o alto, transformadas numa chuva de pipocas, que se espalharam brancas pelo barracão.
Obalúwáiyè, o deus das doenças, transformara-se num jovem belo e encantador. Obalúwáiyè e Yànsán Igbàle tornaram-se grandes amigos e reinaram juntos sobre o mundo dos espíritos dos mortos, partilhando o poder único de abrir e interromper as demandas dos mortos sobre os homens.

Fonte: Os Orixás - Pierre F. Verger
           As águas de Oxalá - José Beniste
           O Culto dos Orixás


Homenagem especial ao "Meu Negão"... será sempre meu!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

E assim...foi inventado o Candomblé...




No começo não havia separação entre
o Òrun, o Céu dos Òrìsás,
e o Àiyé, a Terra dos humanos.
Homens e divindades iam e vinham,
coabitando e dividindo vidas e aventuras.
Conta-se que, quando o Òrun fazia limite com o Àiyé,
um ser humano tocou o Òrun com as mãos sujas.
O céu imaculado do Òrìsá fora conspurcado.
O branco imaculado de Obatalá se perdera.
Òsáàlá foi reclamar a Olòrun.
Olòrun, Senhor do Céu, Deus Supremo,
irado com a sujeira, o desperdício e a displicência dos mortais, soprou enfurecido seu sopro divino
e separou para sempre o Céu da Terra.
Assim, o Òrun separou-se do mundo dos homens
e nenhum homem poderia ir ao Òrun e retornar de lá com vida.
E os Òrisás também não podiam vir à Terra com seus corpos.
Agora havia o mundo dos homens e o dos Òrìsás separados.
Isoladas dos humanos habitantes do Àiyé, as divindades entristeceram.
Os Òrìsás tinham saudades de suas peripécias entre os humanos e andavam tristes e amuados.
Foram queixar-se com Olòdùmàré, que acabou consentindo que os Òrìsás pudessem vez por outra retornar à Terra.
Para isso, entretanto, teriam que tomar o corpo material de seus devotos.
Foi a condição imposta por Olòdùmàré
Òsún, que antes gostava de vir à Terra brincar com as mulheres,
dividindo com elas sua formosura e vaidade,
ensinando-lhes feitiços de adorável sedução e irresistível encanto,
recebeu de Olòrun um novo encargo:
preparar os mortais para receberem em seus corpos os orixás.
Òsún fez oferendas a Esù para propiciar sua delicada missão.
De seu sucesso dependia a alegria dos seus irmãos e amigos Òrìsás.
Veio ao Àiyé e juntou as mulheres à sua volta,
banhou seus corpos com ervas preciosas,
cortou seus cabelos, raspou suas cabeças,
pintou seus corpos.
Pintou suas cabeças com pintinhas brancas,
como as pintas das penas da Konkén,
como as penas da galinha-d’angola.
Vestiu-as com belíssimos panos e fartos laços,
enfeitou-as com jóias e coroas.
O ori, a cabeça, ela adornou ainda com a pena ekodidé,
pluma vermelha, rara e misteriosa do papagaio-da-costa.
Nas mãos as fez levar abebés, espadas, cetros,
e nos pulsos, dúzias de dourados idés.
O colo cobriu com voltas e voltas de coloridas contas
e múltiplas fieiras de búzios, cerâmicas e corais.
Na cabeça pôs um cone feito de manteiga de ori,
finas ervas e obi mascado,
com todo condimento de que gostam os Òrìsás.
Esse osú atrairia o òrìsá ao ori da iniciada e
o òrìsá não tinha como se enganar em seu retorno ao Àiyé.
Finalmente as pequenas esposas estavam feitas,
estavam prontas, e estavam odara.
As Ìyáwos eram a noivas mais bonitas
que a vaidade de Òsún conseguia imaginar.
Estavam prontas para os deuses. 
Os Òrìsás agora tinham seus cavalos,
podiam retornar com segurança ao Àiyé,
podiam cavalgar o corpo das devotas.
Os humanos faziam oferendas aos òrìsás,
convidando-os à Terra, aos corpos das ìyáwos.
Então os òrìsás vinham e tomavam seus cavalos.
E, enquanto os homens tocavam seus tambores,
vibrando os batás e agogos, soando os sekeres e adjás,
enquanto os homens cantavam e davam vivas e aplaudiam,
convidando todos os humanos iniciados para a roda do sirè, os Òrìsás dançavam e dançavam e dançavam.
Os òrìsás podiam de novo conviver com os mortais.
Os òrìsás estavam felizes.
Na roda das feitas, no corpo das ìyáwós, eles dançavam e dançavam e dançavam.
Estava inventado o Candomblé...

(“E foi inventado o candomblé... Mito corrente em terreiros de nagô do Recife e terreiros queto do Rio de Janeiro e de São Paulo. Fragmentos em Arno Vogel et alii, 1993, pp88, 105, 113.)

Òrìsá Oko - O Deus da Agricultura


Oko é o Òrìsá da agricultura. Está ligado à colheita dos inhames novos e a fertilidade da terra. Òrìsá Nagô, pouco conhecido no Brasil. Na época em que os escravos chegaram, não deram muita importância a este Òrìsá, afinal, ele regia exatamente as plantações, que eram de propriedade de seus Senhores e malfeitores, que os obrigavam a grandes sofrimentos nas lavouras. Por ser da agricultura, se alia a Ògún, pois Òrìsá Oko, é o grande rezador e plantador, com suas idéias sobre plantação, colheita e lavoura, e Ògún, traz as suas ferramentas para ajudar a cavar a terra, o arado, o machado, a foice e a enxada. Okô tem o poder de curar a malária, à qual estão expostos aqueles que lidam com agricultura. É árbitro de conflitos, especialmente entre mulheres, e não raro, juiz das costumeiras disputas entre os Òrìsás. Na época da colheita do inhame, ninguém comia o inhame novo sem antes fazer uma festa para Oko. Na África, nas suas festas, se cozinha todo tipo de vegetais, que são colocados nas praças e ruas para que todos se sirvam. Ele traz um cajado de madeira que revela sua relação com as árvores, além de uma flauta de osso que lembra sua relação com a sexualidade e a fertilidade. É confundido com Òsáàlá, pois ambos vestem o branco. Seu cajado, no Brasil, é confeccionado em madeira. Sendo um Òrìsá raro, tem poucas qualidades conhecidas. Seu nome vem do yorubá, e significa Òrìsá da Palavra. É representado por uma estátua de madeira provida de um imenso falo. Além do cajado e da flauta, traz uma chibata de couro e uma faca com fileira de búzios. Na África usam uma barra de ferro como símbolo. Possui o título de Eni Duru, aquele que é erigido, personagem em pé, referência a seus atributos fálicos. Suas comidas devem ser brancas como o akasá de Òsáàlá. O inhame, cozido em fatias com mel, e canjica branca também com mel. Não aceita dendê.
Uma bandeja de madeira contendo côco, cana de açúcar, milho, inhame, todos os produtos da terra, todos crus, como oferenda. 

Itan de Òrìsá Oko

Òrìsá Oko cria a agricultura com a ajuda de Ògun

No princípio havia um homem que se chamava Oko.
Mas Oko não fazia nada o dia todo,
não havia o que fazer, simplesmente.
Quando os alimentos na Terra escassearam,
Olorun encarregou Oko de fazer plantações.
Que plantasse inhame, pimenta, feijão e tudo mais que os homens comem.
Oko gostou da sua missão, ficou todo orgulhoso,
mas não tinha a menor idéia como executá-la.
Até que viu, debaixo de uma palmeira, um rapaz que brincava com a terra.
Com um graveto ele revolvia a terra e cavava mais fundo.
Oko quis saber o que fazia o rapaz.
"Preparando a terra para plantar, para plantar as sementes que darão as plantas", explicou o rapaz de pele reluzente.
"Que sementes , se nem plantas ainda há?!", perguntou, incrédulo, Oko.
"Nada é impossível para Olòdùmàré", foi a resposta.
Começaram então a cavar juntos a terra.
O graveto que usavam como ferramenta quebrou-se e passaram então a usar lascas de pedra.
O trabalho, entretanto, não rendia e Oko saiu à procura de alguma maneira mais prática.
Outro dia, quando Oko voltou sem solução, o rapaz tinha feito fogo, protegendo-o com lascas de pedra.
Viram então que a pedra se derretia no fogo.
A pedra líquida escorria em filetes que se solidificavam.
"Que ótimo instrumento para cavar!", descobriu efusivamente o inventivo rapaz.
Ele pôde então usar o fogo e fazer lâminas daquela pedra, e modelar objetos cortantes e ferramentas pontiagudas.
Ele fez a enxada, a foice, e fez a faca e a espada e tudo mais que desde então o homem faz de ferro para transformar a natureza e sobreviver.
O rapaz era Ògún, o Òrìsá do ferro.
Juntos revolveram a terra e plantaram e os alimentos foram abundantes.
E a humanidade aprendeu a plantar com eles.
Cada família fez a sua plantação, sua fazenda, e na Terra não mais se padeceu de fome.
E Oko foi festejado como Òrìsá Oko, o Òrìsá da fazenda, da plantação.
E Ògún e Òrìsá Oko foram homenageados e receberam sacrifícios como os patronos da agricultura, pois eles ensinaram o homem a plantar e assim superar a escassez de alimentos e derrotar a fome. 









Fonte: Juntos no Candomblé
Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Poema Ewi por Adiodun Adepoju

som ícone Som: primeira estrofe em iorubá, 113 KB au.
Poema inteiro, 1,4 MB. Au



OLOMO LO LAIYE
EDUMARE WA WA FUN LOMO AMUSEYE
OMO TII TOJU ARA
TII TOJU ILE
TII TOJU BABA
FUN WA LOMO ATATA
TII Munu IYA DUN.
OMO TITUN TO WA SILE AIYE
OBI ORE ATOJULUMO
E MA KU ALEJO OMO TITUN
OROGBO LO NI KOO GBO SAIYE
KOO GBO Pelu DERA.
OMO OWO KII KU LOJU OWO
BEE OMO NI KII KU LOJU ESE ESE
OMO WA O NII KU
TIYIN NAA O NI DAGBEGBIN BI ISU
ODOODUN LA NROROGBO
ODOODUN LA NRAWUSA
ODOODUN LA NROMO OBI LORI ATE
LODUNLODUN NI KOLORUN O FOMO RERE
KE GBOBO EN TO NWOMO.
BIBI LA Bimo TUNTUN
EDUMARE JOMO TUNTUN O DAGBA
Koun NAA O SI DOLOMO TUNTUN
KULUKULUKULU OMO WEERE
LODEDE GBOGBO WA.
ABOYUN NU KO BI Tibi TIRE
A KII GBEBI EWURE
A KII GBEBI AGUTAN
Lojo IKUNLE ABOYUN
KA GBOHUN IYA
KA GBOHUN OMO TITUN
WEREWERE Lewe NBO LARA IGI
GBEBE NII RO KOKO LAGBALA
A TABOYUN A KOKO TI
Yio ROYIN LORUN
GBEDEMUKE
GBEDEMUKE
OMIDAN TO Nwoko
KOLUW O FUNWON LOKO RERE
UPON TIO Laya
GBAIYA RERE KO WON LONA
Aiya ELESO
OGEDE KII GBODO KO Yagan
AWON TI NWOJU
JE Kiwon O FOWO Bosun
KIWONSI FI PAMO LARA
A TOMIDAN A Tapon
WA DAWON LOHUN LASIKO
Agbe NII GBERE PADE Olokun
Aluko NI GBERE PACE OLUSA
KOLUWA O Gbomo RERE
PADE AWA
EYIN AWA EYIN
BINA BA KU A BOJU FEERU
BOGEDE BA KU A FOMO RE ROPO
OLOYE KU FOLOYE SILE LO
OJI TAA BA Paju DE
OMO RERE NI WA KO JOGUN
ABO REE MI
E MA O PE GBABO MI
Abiodun A JI KUGBA ORIN
ERUWA NILE ILE BABA MI
ERUWA Djoko Agbe DUDU
ORI OKELE
AKUKO GAGARA KII KO L'ERUWA
Agbe NII DAJOWON
EMI Abiodun ADEPOJE LUNFOHUN BI AGBA.


















Fonte: Poema Ewi by Adiodun Adepoju
Ter um filho, é ter alegria na vida.
Deus nos dê a uma criança que podemos estar orgulhosos.
Uma criança que cuida da família,
que cuida da casa,
Que cuida do pai.
Dá-nos um precioso filho,
que faz com que a mãe feliz.
O bebê é recém-chegados.
Pais, amigos e aquaintances, todos vocês são elogiados para o bebê;
O bebê pode ter uma vida longa.
A longa vida com conforto.
A criança não vai morrer, enquanto nas mãos.
A criança não vai morrer, enquanto em todo o colo.
Nosso bebê não morrerá
O seu não deve ser enterrado como um inhame.
Cola amarga aparece a cada ano
Anualmente faz Awusa erva aparecem
Colanuts superfície a cada ano.
Que Deus dê bons filhos anual.
A todos aqueles que querem ter filhos.
De fato, um novo bebê nasce.
Que Deus o abençoe com a velhice
para que ele possa se reproduzir.;
Muitas crianças, Inteligente, desde a infância,
deve ser em nossa casa.
Que a mãe grávida entregar com segurança
Cabras nunca passar por parteiras.
Ovelhas nunca passar por parteiras.
No dia da mulher grávida de entrega,
Vamos ouvir a voz da mãe;
vamos ouvir a voz do bebê.
Uma folha madura cai facilmente.
O cacau no pátio é sempre verde.
Para a mãe grávida e da criança prestes a nascer,
será fácil;
gentil,
gentil.
Para as mulheres solteiras,
Que Deus dê-lhes bons maridos.
Quanto aos homens solteiros, que eles possam ter boas esposas;
Boas esposas fértil.
Pode não ser estéril.
Para o candidato ser mães,
Pode ter sucesso
em ter filhos.
A mulher solteira eo homem solteiro,
seus pedidos podem ser concedidos.
Coisas boas será nossa.
Vamos atingir goodies.
Deus há de nos presentear com bons filhos.
Para nós, a você,
para todos nós juntos.
Quando alguém morre, um sobrevivente é para substituí-lo.
Substituição é essencial.
A líder morto deixa um líder de vida para trás.
No dia em que morremos,
podemos deixar uma criança preciosa para herdar a nossa riqueza.
Aqui, faço uma pausa;
esta é a minha pausa.
I, Abiodun, desde tenra idade, canta 200 músicas.
Eruwa é minha cidade natal, cidade de meu pai.
Eruwa Ojoko, com um papagaio preto,
em Okele colina.
Não é um galo que canta em Eruwa,
é um papagaio que faz anúncios da cidade.
É Abiodun Adepoju que fala como os anciãos.


Nàná Buruku


Nàná Buruku ou Nàná Bùkùú é uma divindade muito antiga. É conhecida no Novo Mundo, tanto no Brasil como em Cuba, como a mãe de Obàluwàiyé - Omolu - Sapanà. É sincretizada  como Sant'Ana no Brasil e como Nossa Senhora do Carmo ou Santa Teresa em Cuba. Os colares de vidro, usados  por aqueles que lhe são consagrados, são na cor branca com listras azuis. Segundo uns, o seu dia é a segunda-feira, juntamente com seu filho Obalúwàiyè, segundo outros, na terça-feira, e ainda os que consagram o sábado, ao lado das outras divindades das águas. Seus adeptos dançam com dignidade que convém a uma senhora idosa e respeitável. Seus movimentos lembram um andar lento e penoso, apoioado num bastão imaginário que os dançarinos, curvados para a frente, parecem puxar para si. Em certos momentos, viram-se para o centro da roda e colocam seus punhos fechados, um sobre o outro, parecendo segurar um bastão.

Quando Nàná se manifesta numa de suas iniciadas é saudada pelos gritos de "Salúba!". Fazem-lhe sacrificios de cabra e galinhas-d'angola, sem utilizar facas.

É considerada a mais antiga das divindades das águas, não das ondas turbulentas do mar, como Yemojá, ou das águas calmas dos rios, domínio de Òsún, mas das águas paradas dos lagos e lamacentas dos pântanos. Estas lembram as águas primordiais que Odúduwà encontrou no mundo quando criou a terra.

Senhora de muitos búzios, Nàná sintetiza em si morte, fecundidade e riqueza. O seu nome designa pessoas idosas e respeitáveis e, para os povos Djedje, da região do antigo Daomé, significa “mãe”. Nessa região, onde hoje se encontra a República do Benin, Nàná é muitas vezes considerada a divindade suprema.

Sendo a mais antiga das divindades das águas, ela representa a memória ancestral do nosso povo: é a mãe antiga (Iyá Agbà) por excelência. É mãe dos òrìsás Iroko, Obaluwáiyè e Osùmàré, mas por ser a deusa mais velha do candomblé é respeitada como mãe por todos os outros òrìsás.

A vida está cercada de mistérios que ao longo da História atormentam o ser humano. Porém, quando ainda na Pré-História, o homem se viu diante do mistério da morte, em seu âmago irrompeu um sentimento ambíguo. Os mitos aliviavam essa dor e a razão apontava para aquilo que era certo no seu destino.

A morte faz surgir no homem os primeiros sentimentos religiosos, e nesse momento Nàná faz-se compreender, pois nos primórdios da História os mortos eram enterrados em posição fetal, remetendo a uma idéia de nascimento ou renascimento. O homem primitivo entendeu que a morte e a vida caminham juntas, entendeu os mistérios de Nàná.

Nàná é o princípio, o meio e o fim; o nascimento, a vida e a morte. Ela é a origem e o poder. Entender Nàná é entender o destino, a vida e a trajetória do homem sobre a terra, pois Nàná é a História. Nàná é água parada, água da vida e da morte.
Nàná é o começo porque Nàná é o barro e o barro é a vida. Nàná é a dona do asè por ser o Òrìsá que dá a vida e a sobrevivência, a senhora dos igbás que permite o nascimento dos deuses e dos homens.
Nàná pode ser a lembrança angustiante da morte na vida do ser humano, mas apenas para aqueles que encaram esse final como algo negativo, como um fardo extremamente pesado que todo o ser carrega desde o seu nascimento. Na verdade, apenas as pessoas que têm o coração repleto de maldade e dedicam a vida a prejudicar o próximo se preocupam com isso. Aqueles que praticam boas ações vivem preocupados com o seu próprio bem, com a sua elevação espiritual e desejam ao próximo o mesmo que para si, só esperam da vida dias cada vez melhores e têm a morte como algo natural e inevitável. A sua certeza é a imortalidade da sua essência.
Nàná, a mãe maior, é a luz que nos guia, o nosso cotidiano. Conhecer a própria vida e o próprio destino é conhecer Nàná pois os fundamentos dos Òrìsás e do Candomblé estão ligados à vida. A nossa vida é o nosso Òrìsá.
É na morte, condição para o renascimento e para a fecundidade, que se encontram os mistérios de Nàná. Respeitada e temida, Nàná, deusa das chuvas, da lama, da terra, juíza que castiga os homens faltosos, é a morte na essência da vida.

Características dos filhos de Nàná Burukú
 
Os filhos de Nàná são pessoas extremamente calmas, tão lentas no cumprimento das suas tarefas que chegam a irritar. Agem com benevolência, dignidade e gentileza. As pessoas de Nàná parecem ter a eternidade à sua frente para acabar os seus afazeres; gostam de crianças e educam-nas com excesso de doçura e mansidão, assim como as avós. São pessoas que no modo de agir e até fisicamente aparentam mais idade.
Podem apresentar precocemente problemas de idade, como tendência a viver no passado, de recordações, apresentar infecções reumáticas e problemas nas articulações em geral.
As pessoas de Nàná podem ser teimosas e “ranzinzas”, daquelas que guardam por longo tempo um rancor ou adiam uma decisão. Porém agem com segurança e majestade. As suas reações bem equilibradas e a pertinência das suas decisões mantêm-nas sempre no caminho da sabedoria e da justiça. Embora se atribua a Nàná um caráter implacável, os seus filhos têm grande capacidade de perdoar, principalmente as pessoas que amam. São pessoas bondosas, decididas, simpáticas, mas principalmente respeitáveis, um comportamento digno da Grande Deusa do Daomé.

Constatamos que os Oríkì para Nàná, colhidos em Keto e Abeokutá, cidades situadas na região leste da África, descrevem bem as suas diversas características definidas para o culto dessa divindade:

" Proprietária de um cajado.
Salpicada de vermelho, sua roupa parece coberta de sangue.
Orixá que obriga os fon a falar Nagô.
Minha mãe era inicialmente da região Bariba.
Água parada que mata de repente.
Ela mata uma cabra sem utilizar a faca."


Itan de Nàná

Nàná fornece a lama para a modelagem do homem

Dizem que quando Olorun encarregou Òsáàlá de fazer o mundo e modelar o ser humano, o òrìsá tentou vários caminhos.
Tentou fazer o homem de ar, como ele. Não deu certo, pois o homem logo se desvaneceu.
Tentou fazer de pau, mas a criatura ficou dura.
De pedra ainda a tentativa foi pior.
Fez de fogo e o homem se consumiu.
Tentou azeite, água e até vinho-de-palma, e nada.
Foi então que Nàná veio em seu socorro.
Apontou para o fundo do lago com seu ibiri, seu cetro e arma, e de lá retirou uma porção de lama.
Nàná deu a porção de lama a Òsáàlá, o barro do fundo da lagoa onde morava ela, a lama sob as águas, que é Nàná.
Òsáàlá criou o homem, o modelou no barro.
Com o sopro de Olorun ele caminhou.
Com a ajuda dos Òrìsás povoou a Terra.
Mas tem um dia que o homem morre e seu corpo tem que retornar à terra, voltar à natureza de Nàná Buruku.
Nàná deu a matéria no começo, mas quer de volta no final de tudo o que é seu.


Fonte: Orixás - Deuses Yorubás na África e no Novo Mundo - Pierre Fatumbi Verger
            Mitologia dos Orixás - Reginaldo Prandi
            www.candomble.wordpress.com

sábado, 23 de julho de 2011

Porque Òsáàlá usa ekodidé




Esta é a história de Omo Òsún. Uma jovem e bela mulher que, cumprindo feliz o seu destino nesse mundo de cuidar da coroa e dos paramentos do mais velho, mais nobre e mais sábio rei o Grande Pai Òsáàlá, transpirava alegria, felicidade e riqueza para todos os cantos do mundo.
Graças à sua dedicação e alegria, Omo
Òsún, nome que significa filha da Grande Mãe Òsún, passou a ser admirada pelas pessoas importantes do reino e muito querida pelo Grande Pai Òsáàlá. Mas neste mundo visível  - áiyè e no mundo do além - orun nem tudo são flores e ocorreu que a satisfação do rei e seus ministros com os serviços de Omo Òsún, infelizmente, gerou entre algumas mulheres da corte o sentimento de inveja e o desejo constante em prejudicarem Omo Òsún.
A primeira maldade das invejosas contra Omo
Òsún foi tentar dar sumiço na caríssima e valiosa coroa prateada do grande Pai Òsáàlá. Imaginem que as invejosas conseguiram entrar nos aposentos proibidos do rei, que eram da responsabilidade de Omo Òsún, pegaram escondida a valiosíssima coroa e jogaram-na no mar. Omo Òsún, ao perceber o que ocorreu, desesperada com o sumiço da coroa, com o auxílio da sua pequena filha procurou em cada centímetro do imenso palácio e nada de encontrá-la.
Retornando aos aposentos do rei, Omo
Òsún, sem saber mais onde procurar e o que fazer, encostou-se na cama e de tão cansada dormiu.
A garotinha filha de Omo
Òsún, muito preocupada com a sua mãe, ao deitar fez uma prece a Olorun, o Deus Supremo, mãe e pai do universo, solicitou sua ajuda, e depois foi dormir também. A criancinha já estava no seu terceiro sono quando teve um sonho. Nas nuvens do seu sonho, a menina se viu na grande feira da cidade sagrada de Ilè Ifé, a feira estava repleta de peixes prateados. Então, um peixe desajeitado e muito engraçado, caminhando como se tivesse comido um boi de tão cheia a sua barriga, aproximou-se da menina no sonho, olhou-a bem nos olhos e deu uma cusparada de água fria bem no meio do seu rosto. Depois da brincadeira, o peixe malandro, com sua barriga gorda, saiu correndo e dando risada. Assustada com o jato d’água no rosto que recebeu do peixe no sonho, a garota acordou.
Já era de manhã e a garotinha correu para os braços da sua mãe Omo
Òsún que ainda dormia, tentando acordá-la para contar o seu estranho sonho. Omo Òsún acordou e, ao ouvir o sonho da sua filhinha, resolveu ir correndo para o local onde normalmente acontecia a feira.
Logo que chegaram ao local, elas verificaram que naquele dia não estava acontecendo a grande feira, só havia alguns poucos feirantes comercializando banana, inhame, leite de cabra, azeite e vinho da palma, e, para decepção das duas, nada de peixe.
Omo
Òsún então puxou conversa com um feirante em busca do tal peixe do sonho. O homem disse. “Ô minha senhora, peixe só encontra na feira dia de sábado, hoje é segunda dona, não tem peixe não!”.
Preocupada, Omo
Òsún pensou em desistir de procurar o tal peixe dos sonhos, mas a garotinha, puxando o vestido da mãe, disse que queria ver o peixe malandro com sua barriga gorda. Omo Òsún resolveu continuar procurando. Andando, andando pelo grande espaço onde se realizava a feira, entre as muitas barracas fechadas e alguns poucos vendedores, não é que de repente, lá no encontro das ruas, no centro da feira, apareceu um vendedor alegre gritando: “Ói o peixe, ói o peixe!”. Omo Òsún, apreensiva, se aproximou do homem e perguntou o preço do quilo do peixe. O vendedor brincalhão abaixou o cesto no chão e, para surpresa de Omo Òsún e alegria da sua filhinha, lá estava o peixe barrigudo e malandro do sonho da menininha.
Omo
Òsún gastou todas as suas economias para comprar o enorme peixe e correu com sua filha ao palácio e nos seus aposentos abriu a barriga gorda do peixe malandro e lá estava a maravilhosa coroa prateada de Òsáàlá, inteirinha, linda!
A menina sorriu! Desta vez não levou nenhuma cusparada no rosto do peixe malandro que terminou bem fritinho na panela!
As invejosas, ao ficaram sabendo da impressionante história, surpresas com a sorte de Omo
Òsún e da sua filhinha, resolveram articular outra maldade.
Percebendo que não tinham conseguido prejudicar Omo
Òsún anteriormente, as invejosas, descontroladas e dominadas pelos sentimentos negativos de inveja, ódio e despeito, resolveram fazer uma mistura poderosa, uma espécie de cola mágica. Depois, pegaram essa mistura e passaram em cima da cadeira de Omo Òsún, ao lado do trono do rei. A intenção das invejosas era que, na cerimônia de apresentação do rei à comunidade, Omo Òsún ficasse presa na cadeira e não pudesse cumprir as suas tarefas de zeladora, desapontando assim a todos.
Tudo ocorreu como as invejosas planejaram e Omo
Òsún, a querida zeladora de Òsáàlá, ao sentar-se ficou presa na cadeira e, pior, devido ao imenso esforço para soltar-se, começou a sangrar.
Os movimentos estranhos de Omo
Òsún na cadeira e depois o sangue que saia entre as suas pernas causaram a imediata indignação de todos os presentes que correram para proteger o Rei. Algumas pessoas muito revoltadas pensavam: “Como a zeladora do grande Pai Òsáàlá se comportava daquela maneira?” “Como alguém pode ofender tão gravemente ao Grande Pai  – rei do pano branco – trazendo à sua presença sangue?”.
Na imensa confusão que se formou, enquanto as invejosas davam altas gargalhadas, Omo
Òsún tentou explicar que não sabia o que estava ocorrendo, que não teve culpa, mas todos os presentes, indignados com a situação, expulsaram-na do palácio.
Omo
Òsún, sentindo-se humilhada e desamparada, sozinha no mundo, separada da sua filhinha que ficou com uma família do reino, saiu caminhando à procura de ajuda, tentando reverter aquela situação tão estranha.
Procurou a família do chefe dos caçadores, o Òrìsá Òsóòsi, depois a família do chefe dos ferreiros, o Òrìsá Ògún e assim por diante. Mas, sabendo do ocorrido no palácio do Grande Pai Òsáàlá, todos se recusaram a recebê-la.
Após longa caminhada, muito triste e envergonhada, Omo Òsún dirigiu-se ao palácio da Grande Mãe, o Òrìsá
Òsún.
A Mãe
Òsún, já sabendo da injustiça que praticaram contra a sua filha no palácio de Òsáàlá, amparou Omo Òsún e disse para ela não se preocupar que tudo seria resolvido.
A partir daquele dia, devido à atitude negativa de pessoas invejosas que geraram uma grande onda de injustiça contra Omo
Òsún, tudo, tudo no mundo virou de cabeça para baixo!
Os rios começaram a secar, os peixes morriam, os frutos apodreciam nos pés, as mulheres perdiam seus filhos, os animais adoeciam. Ocorria uma grande calamidade na terra.
As pessoas, preocupadas e estranhando o que estava acontecendo no mundo, apreensivas, resolveram consultar o grande sábio Orumilá e o oráculo de Ifá para saber o que estava sucedendo. Chegando à morada do grande adivinho na densa floresta sagrada de Ilè Ifé, as pessoas contaram ao sábio o que estava acontecendo no mundo. Orunmilá, percebendo que havia algo de realmente misterioso, resolveu consultar o oráculo de Ifá para perceber o que estava por trás de tudo aquilo.
Depois de algum tempo vendo, ouvindo e sentindo o que Ifá dizia, Orunmilá falou ao visitante o que ficou sabendo através do oráculo: “Fizeram uma grande injustiça à filha de
Òsún, atrapalharam o destino da moça, por isso está acontecendo tanta tragédia no mundo!”.
As pessoas, espantadas e muito preocupadas perguntaram o que poderiam fazer para reverterem aquela situação tão drástica. Orunmilá jogou novamente os búzios e obteve a resposta de Ifá. “Todas as pessoas e òrìsás, em sinal de desculpas pelas injustiças praticadas contra Omo
Òsún, devem urgentemente levar oferendas à Grande Mãe Òsún no seu palácio e solicitar que se restabeleça a harmonia e o mundo não se acabe”.
Os conselhos de Orunmilá se espalharam rapidamente pelo mundo visível àiyé e pelo espaço do além orun e assim foi feito. Todos se dirigiram ao palácio da grande Mãe
Òsún, levando oferendas de frutas, perfumes e jóias de cobre, solicitando as suas desculpas pela injustiça que foi cometido contra Omo Òsún. Em respostas às solicitações e às delicadas oferendas feitas pelos muitos visitantes, oferendas que enriqueciam cada dia mais a jovem Omo Òsún, a grande Mãe Òsún retribuía os presentes dos visitantes com uma pena vermelha do papagaio africano chamado ekodidé, infinitas penas vermelhas da fertilidade e da riqueza que surgiram do sangue derramado por Omo Òsún.
O Grande Pai Òsáàlá, sabendo do que estava se passando no palácio da Grande Mãe
Òsún e da injustiça que todos cometeram contra a sua querida servidora Omo Òsún, resolveu dirigir-se ao palácio da Grande Mãe Òsún com sua imensa e rica comitiva no dia do Sirè, dia da festa.
No dia do sirê, todos os òrìsás e pessoas presentes no palácio da Grande Mãe
Òsún ficaram surpresos com a presença ilustre do maior dos òrìsás, o grande Pai Òsáàlá e sua linda comitiva. Foi um rebuliço danado recebê-los, era uma beleza só.
Era tanta gente vestida de branco: chefes das aldeias com suas mulheres e filhos, guerreiros, bailarinos, cantores, cavaleiros e, bem no centro da grande comitiva, o Grande Pai Òsáàlá cercado com suas esposas que traziam nas mãos vasos repletos de flores, perfumes, búzios da costa, jóias e os mais finos vinhos de palma. Presentes que inundavam vida, paz, alegria e força por todo o àiyé/orun.
Era muito lindo ver os habitantes das terras de Òsáàlá, com suas peles negras e retintas como a noite mais profunda, todos envolvidos nos tecidos brancos mais alvos e finos a homenagear o Grande Pai Òsáàlá, a Grande Mãe
Òsún e Omo Òsún.

A Grande Mãe Òsún, com seu jeito delicado, e orgulhosa em receber aquela comitiva no seu palácio, reverenciou o Grande Pai Òsáàlá e ofereceu a ele em retribuição pela sua importante visita um pena ekodidé. Então, surpreendendo a preocupada segurança real e a todos os presentes, Òsáàlá dirigiu-se a Òsún e sua filha Omo Òsún e, agachando-se, levou a pena do pássaro ekodidé à cabeça e disse: “Como exemplo da minha gratidão à dedicação de Omo Òsún e como reconhecimento da importância do poder feminino para que haja vida no mundo, a partir desse dia usarei preso ao centro da testa, próximo a minha coroa, o "ekodidé”.
A atitude de Òsáàlá, o Grande Òrìsá, em adotar o ekodidé na sua vestimenta branco alva, repleta de pureza, força masculina e vida, mostrou a todos a dimensão e importância da harmonia entre o princípio feminino e masculino. Forças que se complementam e devem permanecer sempre harmonizadas.
A Grande Mãe
Òsún, emocionada com os gestos de Òsáàlá, tomou sua filha Omo Òsún pelo braço e entregou-a novamente sob a proteção do Grande rei para que assim ela continuasse a cumprir feliz o seu destino no mundo,   cuidar da coroa e dos paramentos do mais velho, mais nobre e mais sábio rei.
E começou o sirê, a grande festa no palácio de
Òsún! Os alabès, tocadores de percussão, dos diversos reinos yorubás se uniram para saudar aquele dia de reconciliação.
Os òrìsás presentes fizeram uma linda roda e, ao ritmo potente do toque dos alabès, dançaram belíssimas coreografias saudando a terra, a água, o ar, os animais, o vento e os ancestrais!
Enquanto isso, as invejosas, sozinhas no palácio de Òsáàlá, temendo a ira do rei, saíram correndo pelo mundo tentando esconder as suas maldades. Elas não haviam percebido que o problema não estava na vingança do rei, o problema estava naquilo que elas semearam de bom ou ruim no seu destino, sementes que por certo um dia iriam colher de volta.
Òsáàlá, o Grande Pai dança no sirê, festa, que ocorreu no palácio da Grande Mãe
Òsún. Omo Òsún, lá no palácio da Grande Mãe Òsún, muito feliz, se divertia naquela festança com comida farta, bebida em abundância. A comemoração do começo de um novo ciclo de renovação da vida no universo.
 


(Adaptação livre inspirada na obra de Mestre Didi feita por Ronaldo Martins)