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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O ciclo espiritual



A essência espiritual do ser humano, ou seja, sua alma, compõem-se os três elementos principais. O primeiro é o eledá, ou iponri, que é o seu espírito, a energia do seu guia ancestral, ligado a sua cabeça, ao seu destino e à sua cadeia reencarnatória.

O segundo é o emi, a respiração que, além de morar nos pulmões e no tórax, serve-se das narinas com as duas aberturas do fole do ferreiro. A respiração é o sopro vital, que faz o indivíduo trabalhar e lhe propicia a vida.

O terceiro elemento é ojiji, a sombra, que não tem outra função na vida a de seguir o corpo vivo, expressando a sua existência. Pode-se ver a sombra, ouvir e sentir a respiração, mas ninguém ouve ou sente o eledá. A sombra não tem substância e nem precisa ser alimentada, e a respiração nutre-se do alimento que o indivíduo ingere.

Contudo, o eledá, que se confunde com o próprio eu do indivíduo, deve ser nutrido através do ritual destinado a alimentar à cabeça, o bori.

A cabeça é o invólucro da mente e do cérebro - cabeça interior (ori inu) - que concentra a essência e o destino do ser humano e dirige a sua personalidade. Por isso, é cultuada como uma divindade, recebendo súplicas, louvores e oferendas.


Trecho do livro Kitábu - o livro do saber dos espíritos negro-africanos por Nei Lopes

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O "Eu" Sagrado



O "Eu" é sagrado no Candomblé. Ele não é somente parte do Òrìsá geral (Augras, 1983). Cada pessoa tem um deus particular, que deve ser assentado num altar privativo, que tem um nome que é só dele, em geral conhecido apenas pela pessoa e por seu zelador, o pai-de-santo. O "Deus" de uma pessoa importante na religião pode ser herdado e continuará a merecer culto, mas ainda assim não substituirá o Òrìsá pessoal do herdeiro.

No Candomblé, além das qualidades (Verger, 1985; Lépine, 1981), o Òrìsá ainda se desdobrará em Òrìsá da pessoa — único e intransferível, assentado na iniciação. O momento culminante da iniciação, não por acaso, é aquele em que, no barracão, o ìyáwó, “virado” (em transe) no orixá, rodopia, salta e grita seu nome — única vez que o pronunciará em público, na chamada saída do nome, ou saída do orukó (nome, em ioruba) no linguajar-do-santo.

Para cada indivíduo, um "Deus". Mas todos os Òrìsás particulares assemelhados se constituem em qualidades do Òrìsá, que juntos formam o Òrìsá geral. Da força (Asè) de cada Òrìsá particular dependerá a força do Òrìsá geral. E não se pode cultuar um Òrìsá geral a menos que se cultuem os Òrìsás particulares, ou os Òrìsás de um grupo, os Òrìsás coletivos, da casa, denominados Ojugbós, e que são coletivos por representar exatamente a origem ancestral daquela casa, daquela família, que, no Novo Mundo, perdida a origem clânica, só pode ser a família ritual, a família-de-santo, o terreiro, o axé.

Mas antes do culto ao "deus" vem o culto à individualidade do homem, à cabeça, o que está dentro da cabeça, o Ori. O ritual de dar comida à cabeça, o bori, é dos mais registrados pela etnografia afro-brasileira (Querino, 1938:63-66; Carvalho, 1984, entre outros). Para os iorubanos, o Ori tem status de divindade, recebendo cultos tão complexos quanto os dirigidos aos Òrìsás (Abimbola, 1976: 113-150; 1975: 32-35, 158-177). No Brasil, como em Cuba, o rito de dar comida à cabeça preservou-se como primeira etapa da iniciação.

Entre nós, o cerimonial do bori é usado não apenas para a iniciação e renovação de forças do iniciado, como também no tratamento de doentes.

É necessário alimentar o Ori como é necessário alimentar o Òrìsá. Não se faz nada para Òrìsá sem antes cuidar da cabeça. “Ori buruku, kossi Òrìsá”, diz-se, ou seja, cabeça ruim não dá Òrìsá. É no Ori que o Òrìsá da pessoa será fixado. 

Entre os iorubanos, diz-se que é o Òrìsá Ajalá é o responsável pelas cabeças. Ele as modela em barro e as coze. Mas Ajalá é velho, distraído e está cansado de fazer cabeças, e assim às vezes ele se descuida e algumas não saem bem feitas: "Quem carregar um ori malfabricado terá muitos problemas na vida, jamais deixará de ter dificuldades com o próprio destino" (ver Abimbola, 1975: 178-207).

Com a nossa morte, o Ori morre, mas não o Òrìsá nem a nossa memória, que poderá ser assentada e cultuada, o Egun.

Reginaldo Prandi

terça-feira, 22 de março de 2011

Ofò fún bibó Ori (Encantamento para propiciar a cabeça)



Esta reza é para ser feita todas as manhãs, ou pelo menos, 4 vezes na semana. Ao acordar, pela manhã, bem cedo, não fale com ninguém. Vá até o seu quarto de Òrìsá, em frente ao Igbá de seu Òrìsá Funfun (Obatalá). Caso não tenha em casa, vá à uma área onde vc veja o Sol nascendo. Coloque uma enin (esteira), caso não tenha, coloque um lençol branco. Ajoelhe-se, de frente para o Sol. Pegue um pouco de gin e bocheche, cuspindo para o lado. Não engula o gin. Pegue um copo de água fresca. Molhe o centro de sua cabeça e invoque ORI: Ori oooooo. Ori oooooo. Ori ooooo. E então proceda essa reza. Não é necessário rezar em Yorubá, mas pode rezar. IRE O (BOA SORTE PARA VOCÊ)!

OFÒ FÚN BIBÓ ORÍ (Encantamento para propiciar a cabeça).

ÒRÚNMÌLÀ NÍ ODI ÈDÙN, MO NÍ ODI ÈDÙN. ÒRÚNMÌLÀ NÍ ODI ÈDÙN OKÀN, MO NÍ ODI ÈDÙN OKÀN. ONÍ TÍ EGBÉ ENI NBÁ LÓWÓ, T’A ÀBÁ LÒWÒ, Ò NÍ ORÍ ENI L’ÀÁ KÉPÈ. ONÍ TÍ EGBÉ ENI BÁ À NSE, OHUN RERE TÁÀBÁ RÍ OHUN RERE SE, Ò NÍ ORÍ ENI L’ÀÁ KÉPÈ. ORÍ MÌ, WÁ SE LÉ GBÈ LÉHÌN MI. IGBA, IGBA, NÍ ORÒGBÒ NSO LÓKO; IGBA, NÍ OBÌ NSO LÓKO . IGBA, IGBA NÍ ATAARE NSO LÓKO. IGBA , AJÉ KÓ WOLÉ TÓ MI WÁ. OÒGÙN, ÀÌSÀN, EJÓ, WÀHÁLÀ, IKÚ, ÀÍRÍJE, ÀÌRÍMU KÓ PÒÓRÁ . TÍ EFUN BÁ WO INÚ OSÙN, ÁPÒÓRÁ . KÍ GBOGBO WÀHÁLÀ MI PÒÓRÁ . ÀWÍSE NÍ TI IFÁ, ÀFÒSE NÍ TI ÒRÚNMÌLÀ. ÀBÁ TÍ ALÁGEMO BÁDÁ NI ÒRÌSÀ ÒKÈ NGBÀ. KON KON NÍ EWÉ INÓN NJÓ, WÀRÀ, WÀRÀ, NI OMODÉ NBO OKO ÈSÌSÌ. ILÉ ÒGBÁ ÒNÒN Ò GBÁ NÍ TI ÀRÁGBÁ. GBOGBO OHUN TÍ MO SO YÌÍ , KÍ ARÒ KÓ RÒ MÒ ÀSE, ÀSE, ÀSE! 
 
Tradução: (ÒRÚNMÌLÀ que fortifica os tristes, Fortifique-me, eu estou triste. Òrúnmìlà que fortifica o coração triste, fortifique o meu coração triste. Senhor da comunidade, Aquele que é honrado e respeitado, é a cabeça de alguém cansado que invoca tua ajuda. Senhor da comunidade, esteja conosco (me acompanhe), que as coisas boas nos encontrem, e que obtenhamos coisas boas, é a cabeça de alguém cansado que invoca tua a ajuda. Minha cabeça, venha cobrir a casa e minha retaguarda. Duzentos, duzentos, que orògbò cresça na floresta; Duzentos, que obì cresça na floresta. Duzentos, duzentos, que atarê cresça na fazenda. Duzentos, que o poder do dinheiro adentre minha casa. Que as feitiçarias, as doenças, os problemas, as aflições, a morte, a fome, a sede, desapareçam da minha vida. Quando efun entra no osùn, ele desaparece. Que todas as minhas aflições desapareçam. Que a palavra de Ifá se realize, e a de Òrúnmìlà também (como um canto). E ao encontrarem Alágemo realizem-se através dos Òrìsàs, que aceitam do alto. A folha no fogo queima rapidamente (que meus pedidos realizem-se assim). Leite, leite, escorra para as crianças em quantidade, como é na Fazenda Èsìsì. Que minha casa, meus caminhos, meus conhecidos se engrandeçam. Que todos os meus votos façam desabrochar, e transformar-se para mim, afim de que ao nascer do dia eu encontre facilidades. Assim seja!

Reza enviada pelo meu grande amigo Bàbálòrìsá Daniel ti Jagun! Àwùré!!!

Bori - Ajalá criou o Ori

O BORI é o ritual que harmoniza o ORI, dando assim a possibilidade de transformar um " ORI BURUKU" em "ORI RERE".
É através do Jogo de Búzios que o Bàbálòrìsá e/ou Ìyálòrìsá recebe as instruções para realizar este ato (BORI) ritualístico que possibilitará não só a mudança da sorte como também a manutenção da mesma, para que não se perca.

É o BORI que diminui a ansiedade, o medo, a dor e a tristeza,  trazendo a esperança, alegria e a harmonia. Desta forma, o BORI é uma das oferendas mais importantes que visa o bem estar individual no Candomblé.
 
O Ritual de Bori é muito sério, complexo e profundo. Por isso, o Sacerdote deve ter grande conhecimento e respeito em relação à questão do Ori e da evolução humana. Ori é o Orisá mais importante na vida de um homem, uma vez que, sem ele, o homem simplesmente não existiria. Ori significa, literalmente, cabeça e é, misticamente, o primeiro Orisá a ser cultuado. É ele o portador do destino humano.

O Ritual de Bori independe de qualquer processo iniciático e independe do culto aos outros Orisás.(variando assim de casa para casa, mas, sem fugir da finalidade em si). Seu objetivo é o de alimentar o Ori, seja qual for o sexo, raça, profissão, idade, nível social da pessoa. Com este ritual busca-se o equilíbrio através da ação do Ori, condutor do destino pessoal. Muitas vezes se realiza um ritual de Bori com o objetivo de afastar o mal do caminho da pessoa, o que não significa que, retirada esta ameaça nenhum outro mal possa ocorrer. Assim sendo, o Ritual de Bori não tem "prazo de validade", não tem freqüência determinada (anual, semestral, mensal, etc.), devendo ser repetido sempre que se mostre necessário.

O Odu manifestado através do" jogo" é que determina a necessidade de realização do Bori e indica quais materiais devem ser usados. Há dois tipos de Bori:

Aquele que é considerado pré-requisito para uma iniciação, ou seja, primeiramente se alimenta o Ori, divindade pessoal, para a seguir, alimentar outros Orisás.

Aquele realizado a fim de buscar a solução de um problema que aflige a pessoa através do alimento oferecido ao seu Ori, sem que haja necessidade de iniciação.

O local mais apropriado para realização deste ritual é a casa de santo. Este deve ter bom senso quanto a necessidade de recolhimento. Se o Bori for acompanhado de Eje, é recomendável o recolhimento como meio de repouso e proteção, pois o Ori que está sendo venerado não deve receber energia do sol nem do sereno. O recolhimento evita, ainda, que a "sombra daquele que passou pelo bori seja pisada."

O Sacerdote deve saber que durante este ritual a pessoa somente poderá entrar em transe no momento que seu Orisá for louvado. No bori, não se tem o costume de ter a presença do Òrìsá, uma vez que é um ritual destinado a "alimentação da cabeça". Deve conhecer a finalidade e o significado de cada material que usa. Omi, Obi e Orogbò, por exemplo, são elementos indispensáveis no BORI. Omi, a água, representa paz, abundância e fertilidade, enquanto o Obi e o Orogbò é usado para aplacar a fúria das adversidades, alimentar e agradar às divindades.

O jogo de búzios determinará, através de Odu, que material deve ser usado no Bori e este material poderá ser desde apenas uma quartinha com água e um Obi até uma oferenda maior.

ORI RERE = ORI de sorte = Cabeça de sorte, cabeça iluminada
ORI BURUKU = ORI sem sorte = Cabeça sem sorte, confusa, insegura, ruim
ORI INU = "Cabeça Interna"

É o ORI INU que gerencia a cabeça física do homem.
É o Òrìsá mais importante do ser humano, pois ele é ÚNICO, cada pessoa tem o seu. É Ele quem conhece e está ligado ao destino de cada indivíduo, conhece e sabe das suas restrições, das suas fragilidades , das suas potencialidades. É no ORI que se encontra a ferramenta para a solução dos nossos problemas…

Quando estamos em harmonia com ele, superamos os obstáculos mais facilmente e assim, certamente conectados à positividade interna e à dinâmica perfeita da natureza, encontramos a vitória e o sucesso na concretização dos nossos objetivos pessoais….
Da fusão da palavra bó, que em yoruba significa oferenda, com ori, que quer dizer cabeça, surge o termo bori, que literalmente traduzido significa “Oferenda à Cabeça”. Do ponto de vista da interpretação do ritual, pode–se afirmar que o bori é uma iniciação à religião, na realidade, a grande iniciação, sem a qual nenhum noviço pode passar pelos rituais de raspagem, ou seja, pela iniciação ao sacerdócio. Sendo assim, quem deu bori é (Lesè Òrìsà).


Cada pessoa, antes de nascer escolhe o seu Ori, o seu princípio individual, a sua cabeça. Ele revela que cada ser humano é único, tendo escolhido suas próprias potencialidades. Odu é o caminho pelo qual se chega à plena realização de ori, portanto não se pode cobiçar as conquistas do outro. Cada um, como ensina Orùnmilá – Ifá, deve ser grande em seu próprio caminho, pois, embora se escolha o Ori antes de nascer na Terra, os caminhos vão sendo traçados ao longo da vida.
Os mais antigos souberam que Ajalá é o Òrìsá Funfun responsável pela criação de Ori. Dessa forma, ensinaram–nos que Osàálá sempre deve ser evocado na cerimônia de bori. Yemoja é a mãe da individualidade e por essa razão está diretamente relacionada a Ori, sendo imprescindível a sua participação no ritual.


A própria cabeça é síntese de caminhos entrecruzados. A individualidade e a iniciação (que são únicas e acabem, muitas vezes, se configurando como sinônimos) começam no ori, que ao mesmo tempo aponta para as seguintes direções:


OBI ORI - A TESTA
OBI OKAN - O CORAÇÃO
OPA OTUM - MÃO DIREITA
OPA OSSI - MÃO ESQUERDA
ESE OTUM - PÉ DIREITO
ESE OSSI - PÉ ESQUERDO


Da mesma forma, a Terra também é dividida em quatro pontos: norte, sul, leste e oeste; o centro é a referencia, logo toda pessoa deve se colocar como o centro do mundo, tendo à sua volta os pontos cardeais: os caminhos a escolher e seguir. A cabeça é uma síntese do mundo, com todas as possibilidades e contradições.
O bori prepara a cabeça para que o Òrìsá possa manifestar–se plenamente. Há um provérbio nagô que diz: Ori buruku kósi Òrìsá (A cabeça ruim não tem orixá. É o bori que torna a cabeça boa. Entre as oferendas que são feitas ao ori algumas merecem menção especial. É o caso da galinha d’angola, chamada nos Candomblés de etú ou konkém, que é o maior símbolo de individuação e representa a própria iniciação. A etú é adosú, ou seja, é feita nos mistérios do òrìsá. Ela já nasce com osù, por isso relaciona–se com começo e fim, com a vida e a morte, e por isso está no bori e no asèsè.


O peixe representa às potencialidades, pois a imensidão do oceano é a sua casa e a liberdade, o seu próprio caminho. As comidas brancas, principalmente os grãos, evocam fertilidade e fartura. Flores, que aguardam a germinação, e frutas, a germinação, simbolizam fartura e riqueza.


O pombo branco é o maior símbolo do poder criador, portanto não pode faltar. A noz cola, isto é, o obi é sempre o primeiro alimento oferecido a ori; é a boa semente que se planta e espera-se que dê bons frutos.


Todos os elementos que constituem a oferenda à cabeça exprimem desejos comuns a todas as pessoas: paz, tranqüilidade, saúde, prosperidade, riqueza, boa sorte, amor, longevidade, mas cabe ao Ori de cada um eleger prioridades e, uma vez cultuado como se deve, proporcioná-las aos seus filhos.
 


Nenhum Deus abençoa o homem, sem que sua cabeça o permita.


Fonte: www.toluaye.com
http://bamgboseobtico.blogspot.com/